Enquanto a despoluição da Baía de Guanabara avança a passos lentos, o despejo irregular de esgoto e falta de saneamento mantêm distante o lazer da praia para quem vive no subúrbio
Em 1984, os moradores da Ilha do Governador, um dos bairros mais populosos do Rio de Janeiro (RJ), se depararam com a confirmação de um colapso que há anos se desenhava. “Todas as praias da Ilha estão condenadas”, estampava a manchete de O Globo no verão daquele ano. Pela primeira vez, a Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente (FEEMA) – hoje Instituto Estadual do Ambiente (INEA) – declarava impróprias para banho as 27 praias que cercavam o bairro. Os níveis alarmantes de poluição, resultado do despejo contínuo de esgoto doméstico, resíduos industriais e metais pesados na Baía de Guanabara, tiravam dos moradores o direito ao lazer da praia perto de casa.
De lá para cá, o discurso de recuperação da Baía se repete como uma onda que insiste em quebrar no mesmo lugar. Em cinco décadas, ao menos dez promessas de reabilitação foram feitas por diferentes governos, todas sem resultado efetivo. Agora, porém, a Baía parece entrar em outro capítulo. A diferença está no novo desenho do setor de saneamento do Rio de Janeiro, que embalou mais uma promessa para as praias da Guanabara, impulsionado pelo Marco Legal do Saneamento Básico.
Aprovado em 2020, o novo marco estabeleceu metas essenciais: garantir que todos os brasileiros tenham acesso universal à água potável e ao tratamento de esgoto até 2033. A lei abriu caminho para a entrada de empresas privadas no setor e redesenhou o papel do Estado, que passou a atuar mais como fiscal do que como executor. No Rio, esse modelo ganhou corpo com a concessão de parte dos serviços da antiga Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae) à iniciativa privada, com a empresa Águas do Rio assumindo como principal agente dessa nova fase.
Desde que assumiu, a subsidiária da Aegea Saneamento – uma das principais companhias do setor e com histórico de envolvimento em corrupção e falhas no cumprimento de metas –, tem tocado um novo capítulo de promessas para a Baía. A Águas do Rio prevê investir R$ 19 bilhões para atingir as metas estabelecidas pelo Marco Legal do Saneamento Básico e promete, até 2033, devolver à Baía a balneabilidade perdida há décadas.
Na Zona Sul do Rio, o discurso de avanço já encontra respaldo em números. A Praia do Flamengo, banhada pelas mesmas águas da Baía e, por anos, símbolo da poluição, passou a registrar uma melhora inédita na qualidade da água. Segundo a Águas do Rio, o resultado é fruto da limpeza do interceptor oceânico, um túnel de nove quilômetros que coleta o esgoto da região e o direciona para o emissário submarino de Ipanema. A concessionária afirma ter removido três mil toneladas de resíduos que obstruíam o sistema, evitando que cerca de 20 milhões de litros de esgoto chegassem ao mar todos os dias. Desde 2023, os boletins do INEA apontam a Praia do Flamengo entre as mais limpas da cidade, superando, inclusive, praias de mar aberto, como a do Leblon.
Em contraste, do outro lado do Rio, na Zona Norte, o cenário ainda é de abandono. As praias dessa região, sobretudo as da Ilha do Governador, permanecem sufocadas pelos cerca de 18 mil litros de esgoto in natura despejados a cada segundo na Baía de Guanabara, de acordo com estimativas do Comitê de Bacia da Baía de Guanabara (CBH-BG). O lixo doméstico e industrial acumulado nas margens e nas faixas de areia evidencia o retrato da urbanização precária e desigual que marca o subúrbio carioca.
Para o professor Paulo Cesar Rosman, da área de Engenharia Costeira e Oceanográfica da Coppe/UFRJ, a poluição da Baía é, antes de tudo, um sintoma da desigualdade social. “A poluição na Baía de Guanabara é apenas o efeito colateral da situação socioeconômica do seu entorno”, afirma.
De acordo com o Censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 102,7 milhões de brasileiros enfrentam algum tipo de privação de saneamento, o que corresponde a quase metade da população. A coleta de esgoto, embora tenha avançado nos últimos 20 anos, continua longe da universalização: atende 62,5% dos lares.
No Estado do Rio, 1,2 milhões de pessoas não têm acesso a água e 8 milhões vivem sem saneamento básico. Uma parcela expressiva desse contingente está concentrada nas zonas Norte e Oeste da capital fluminense, territórios onde se espalham quase 4 milhões de moradores. Que, para Rosman, a maioria está em situação de sobrevivência.
“Quem está preocupado com o que vai comer amanhã não tem como se preocupar com saneamento, coleta de lixo ou qualidade ambiental.”
Paulo Rosman
A poucos meses das eleições de 2026, a Águas do Rio anunciou que o mesmo plano de revitalização aplicado na Praia do Flamengo será levado às praias da Ilha do Governador, com a promessa de devolver o lazer das praias ao subúrbio carioca até o próximo ano. Mas, por enquanto, o discurso segue à frente das ações. A ausência de obras e a permanência do despejo irregular de esgoto nas praias da Ilha têm alimentado o ceticismo de quem já aprendeu a duvidar. Por isso, esta reportagem observa o nível de concretude dessa promessa e abre espaço para narrar o cotidiano de quem vive, há mais de cinco décadas, entre a memória do que já foi mar e a espera pelo que nunca chega.
“Uma Ilha de praias condenadas” é uma reportagem multimídia que investiga a desigualdade ambiental que atravessa a Baía de Guanabara a partir da Ilha do Governador, território que convive há mais de cinco décadas com praias impróprias devido ao abandono governamental e ao crescimento urbano desordenado na cidade do Rio de Janeiro. Além disso, a produção destaca como a falta de saneamento básico é um marcador da desigualdade territorial e social do Brasil.
A reportagem confronta os anúncios recentes da Águas do Rio, impulsionados pelo Marco Legal do Saneamento, com a realidade material das praias, onde ligações clandestinas, valas de esgoto, lixo acumulado e ausência de obras expõem a distância entre o plano e o território.
A partir de entrevistas, dados e memórias, o trabalho mostra que a poluição da Baía não é apenas um problema técnico: é um reflexo direto dos problemas sociais que organizam o espaço urbano. A investigação recupera ainda o histórico de fracassos do Programa de Despoluição da Baía de Guanabara, das metas estabelecidas para as Olímpiadas de 2016 e das estruturas de saneamento subutilizadas, revelando a recorrente utilização da “despoluição” como instrumento político e como promessa que nunca chega às margens suburbanas.
Ao reunir vozes de moradores, especialistas e evidências em campo, “Uma Ilha de praias condenadas” procura restituir centralidade a um território historicamente esquecido e discutir o que significa viver numa cidade onde até o direito ao mar é atravessado pela desigualdade.
Este projeto de reportagem multimídia foi submetido à banca avaliadora em forma de trabalho de conclusão do curso, como requisito parcial para obtenção do grau de Bacharel em Jornalismo na Universidade Federal Fluminense (UFF).
Nascido e criado em Natal (RN), em uma relação de afeto e próximidade com o mar. Cheguei ao Rio de Janeiro em 2017 e tive a Ilha do Governador como meu primeiro território de vivência. Foi ali que o contraste entre praias bonitas e águas impróprias para banho me chamou a atenção e despertou o meu interesse pelo tema do saneamento e da desigualdade ambiental. Por isso, esta reportagem nasce da minha inquietação em observar a normalização do abandono vivido pelas praias da Ilha e por identificar que o território sempre foi atravessado por promessas de despoluição da Baía de Guanabara que nunca tiveram alguma concretude.
Assim, escrever sobre a Ilha do Governador e a Baía de Guanabara é, para mim, mais do que um exercício jornalístico. É uma forma de denunciar um descaso persistente e de afirmar que saneamento, água limpa e acesso ao mar deveriam ser direitos básicos e não privilégios geográficos.